Gego (Gertrud Goldschmidt) - Venezuela, linhas para uma nova costura.
Domitila Vittoria
1/8/20262 min read


A obra de Gego (Gertrud Goldschmidt) é, acima de tudo, uma lição sobre a resistência da fragilidade. Fugida da Alemanha nazista em 1939, a artista encontrou na Venezuela um solo fértil para desconstruir a rigidez da arquitetura e da geometria, criando o que chamou de "Reticuláreas" — redes de arame que flutuam no espaço, onde o vazio é tão importante quanto a linha.
Hoje, olhar para uma escultura de Gego é inevitavelmente confrontar a imagem da Venezuela de 2026. Se nos anos 50 e 60 o país transbordava o otimismo do modernismo impulsionado pelo petróleo, as redes de Gego simbolizavam uma conectividade infinita e orgânica. Atualmente, essas mesmas tramas parecem representar a resiliência de uma estrutura que, embora severamente tensionada por décadas de crise política e social, recusa-se a romper totalmente.
A crítica contemporânea lê Gego não apenas como uma mestre da abstração, mas como uma voz sobre a precariedade. Em um momento em que a Venezuela ainda busca reconstruir seus fluxos democráticos e lidar com a maior diáspora do continente, as "linhas soltas" de Gego ecoam a fragmentação das famílias venezuelanas espalhadas pelo mundo. Suas obras não têm um centro fixo; são sistemas de relações. Assim é a identidade venezuelana atual: uma rede que se sustenta pela tensão entre os que ficaram e os que partiram.
Diferente do cinetismo imponente de seus contemporâneos, como Cruz-Diez ou Soto, a arte de Gego é silenciosa e manual. Em 2026, esse "fazer à mão" ressoa como um ato político de sobrevivência. Em um país que enfrenta o desafio de se reinventar sob os escombros de instituições desgastadas, a poética de Gego nos lembra que a força não reside na solidez do bloco de mármore, mas na capacidade de uma estrutura leve se adaptar, dobrar-se e permanecer no espaço, apesar do vazio que a cerca.
A Venezuela de hoje, como uma peça de Gego, é uma geometria de sombras e transparências: complexa, ferida, mas mantida de pé pela insistência de seus vínculos.
Domitila Vittoria é curadora, produtora cultural e artista visual.
Cria exposições e projetos que conectam arte, saúde mental e empoderamento feminino, com foco em narrativas sensíveis e práticas colaborativas
