Tadáskía: fabulação, corpo e reinvenção da imagem

Domitila Vittoria

5/25/20261 min read

Tadáskía constrói uma obra que desafia qualquer tentativa de enquadramento estático. Sua prática atravessa desenho, pintura, escultura, escrita e instalação como quem costura pensamentos em estado de metamorfose contínua. Há, em sua produção, uma recusa consciente da linearidade e da definição absoluta: as imagens surgem como organismos vivos, carregados de memória, sonho, fabulação e deslocamento.

A artista opera a partir de uma linguagem profundamente intuitiva, mas rigorosamente articulada. Seus trabalhos parecem existir entre o gesto e o pensamento, entre o corpo e o imaginário, criando territórios onde o simbólico se mistura ao afetivo. Linhas, manchas e formas assumem caráter quase ritualístico, evocando ancestralidades, fabulações cósmicas e estados de transformação subjetiva. Em vez de oferecer respostas, Tadáskía produz atmosferas de suspensão e escuta.

Sua pesquisa também tensiona questões relacionadas à identidade, ao pertencimento e à construção de narrativas negras contemporâneas, sem recorrer ao discurso ilustrativo. A potência de sua obra reside justamente na capacidade de instaurar espaços de liberdade poética, onde a experiência sensível antecede a necessidade de explicação. O que emerge é uma visualidade pulsante, marcada por uma dimensão espiritual e política inseparáveis.

Ao observar sua produção, percebe-se uma artista interessada em expandir os limites da imagem e da linguagem. Seus trabalhos não apenas ocupam o espaço expositivo: eles instauram campos de presença, convidando o público a atravessar zonas de imaginação, memória e reinvenção. Em um cenário artístico frequentemente atravessado pela velocidade e pelo excesso de informação, Tadáskía afirma a delicadeza como força crítica e a fabulação como ferramenta de existência.

Domitila Vittoria é curadora, produtora cultural e artista visual.
Cria exposições e projetos que conectam arte, saúde mental e empoderamento feminino, com foco em narrativas sensíveis e práticas colaborativas