Yayoi Kusama: Entre o Infinito e o Corpo
Domitila Vittoria
1/14/20262 min read


A obra de Yayoi Kusama opera num território singular onde a obsessão pessoal encontra a experiência coletiva. Suas instalações imersivas não são apenas espaços de contemplação, mas campos de força que redefinem a própria noção de fronteira entre o sujeito e o ambiente. Ao entrarmos em suas Infinity Rooms, somos confrontados com a dissolução do corpo no espaço – uma experiência que transcende o visual e se torna existencial.
O uso compulsivo de padrões repetitivos em Kusama não é meramente estético; é um gesto de sobrevivência. As bolinhas que proliferam em suas superfícies surgem de uma necessidade psíquica de dar forma ao incontrolável, de transformar a angústia em linguagem. Essa repetição infinita cria um paradoxo: ao mesmo tempo que fragmenta a percepção, ela unifica. O indivíduo se perde no padrão para então se encontrar de outra forma – não como entidade isolada, mas como parte de um todo pulsante.
Suas instalações espelhadas multiplicam nossa presença até o ponto da despersonalização. Nesse jogo de reflexos infinitos, Kusama nos convida a experimentar a desintegração do ego, um estado que ela mesma conhece profundamente através de suas vivências com saúde mental. É uma arte que nasce da vulnerabilidade e se oferece como portal para outros tipos de consciência espacial.
A imersão que ela propõe não é passiva. Exige que o espectador abandone certezas sobre onde termina seu corpo e começa o espaço. Os pontos de luz flutuante, as cores saturadas, a sensação de estar suspenso no cosmos – tudo isso opera como uma reconfiguração sensorial que questiona nossa solidez no mundo.
Kusama nos ensina que a percepção é sempre uma construção, e que ao modificar o espaço, modificamos a nós mesmos. Suas obras são exercícios de presença radical: estar ali é aceitar a dissolução temporária das bordas que nos definem, é experimentar a porosidade entre interno e externo. Nesse sentido, sua arte é tanto um testemunho pessoal quanto um convite coletivo ao deslocamento – um espaço onde todos podemos nos perder para nos reencontrar transformados.
Domitila Vittoria é curadora, produtora cultural e artista visual.
Cria exposições e projetos que conectam arte, saúde mental e empoderamento feminino, com foco em narrativas sensíveis e práticas colaborativas
